Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Tratado do Sótão

Há um baú no sótão da minha infância. Grão a grão, sopro-lhe a saudade graciosamente pousada nessa estranha forma leve. Está cuidadosamente pesada na balança do tempo, a saudade guarda-se em compartimentos forrados de memória entre laços de sangue, amizades instantâneas, joelhos esfolados, brincadeiras completamente inocentes mas carregadas de verdade, cheias de certezas inabaláveis e de promessas urgentes. 

Há um baú, onde guardo uma infância, está no sótão da minha saudade. Sei que lá está porque ás vezes limpo-lhe o pó. 

Lá dentro há uma alegria imensa, barrigadas de riso tocadas pelo espanto dos minutos infinitos, das aventuras, onde tu pirata e ele polícia. Há uma caixa cheia de minutos cuidadosamente arrumados e embrulhados em lágrimas de choro sincero. Um choro fácil, choro pedinte, choro aprendiz. O choro de uma infância é ouro em estado lágrima.

Há também sonos contrariados, dormidos em colos embalados, há sedes saciadas em fontes imaginadas, ali mesmo, num só minuto. Há segredos tão enormes, mas tão enormes que continham a força de cento e mil trovões quando revelados nos sussurros entre ouvidos. Há corredores corridos e explorados até ao topo da montanha mais alta de todas as montanhas mais altas, sem sequer tirar os pés do chão. Há espanto, um espanto imenso em tudo, desde a formiga que deixamos entrar na boca e que pica na língua, às luvas de lama que são só umas luvas, de lama. Há tardes quentes, noites frias, beijos maternos e uns quantos abraços fraternos. Há notas de guitarra à solta nos ecos dos corredores, notas que vibram no silêncio branco dos céus de cal.

Há um imenso tesouro de alegria, um tesouro esculpido por mãos dóceis em pancadas suaves com escopros gentis na minha memória recôndita.

Está um baú fechado no sótão da minha saudade. Limpo-lhe o pó quando lhe pesa, sopro grão a grão o pó que repousa no sótão da minha infância. 

 

Tratado possível

Começamos numapromessa de possibilidade, do que pode vir a ser, do que se propõe em projecto mesmo antes de ser. Ser, por si, já foi promessa, já foi possibilidade, já foi estaminal, já foi tudo o que podia ser, mas agora, só é.

Ser, só ser, é trivial, é mediano se nada mais acontecer. Ser uma possibilidade de tudo é mais interessante. Ser uma promessa variável que responde ao estimulo, é mais interessante, ser o que se quiser, um limbo próprio de onde só se sai depois de nascer. 

É possível nascer várias vezes? Diria que sim, é possível. Não nascemos só na violenta expulsão do ventre da nossa mãe, primeira condição cruel, mas nas outras possibilidades de parto igualmente brutais que nos tiram a capacidade de sermos de novo possibilidade, segunda condição cruel. Mas há mais: vamos fechando o possível eu, o projecto de mim, em gavetas trancadas nas profundezas das dores de parto que a vida nos transfere, nos entrega, que nos pare. As possibilidades afunilam, esgotam em si, em mim, quando atravesso a rua ao encontro das coisas, aí, a promessa esvai-se, em cada passo, e no meio da rua já somos só meia coisa a caminho de uma probabilidade.

Somos a promessa de tudo enquanto somos só promessa, no regaço do - relativo espaço tempo - dentro de um universal quântico. É possível que o tempo, em si, seja ele uma possibilidade também.  É possível que o tempo até não seja real, que a linha seja vertical, afinal o tempo é uma linha, complexa, mas é uma linha.

Há outros partos, dizia, dos quais não queremos ser filhos, por nos tirarem a promessa, por nos entregarem aoutros colos menos prováveis, menos narráveis, os possíveis. Nas escolhas, as possibilidades esgotam-se em consonância com o tempo oblíquo, escondem-se nas sombras azuis, frias, dos dias celestes, luas mestres, estrelas do Norte. Há escolhas que não escolhemos, são possibilidades em aberto. Há Nortes que viram Sul, conforme os ventos, as vontades incertas dos ventos, mas também do possível tamanho das velas içadas e balões cheios logo ali nas salas de parto. Vê como a possibilidade muda tudo? Entende como a promessa constrói o conceito? E o parto destrói? Somos a possibilidade em promessa enquanto não prometemos nada. Somos alpha e beta ao mesmo tempo, zero e um em simultâneo enquanto não olhamos, em probabilidade, em discernimento e em constante pergunta, uma intensa interrogação quântica.

Confuso? Eu também, confesso. Mas imagine: em determinado momento, a estrela mestre, a que indica o Norte, indica Sul precisamente no mesmo momento. A escolha é de quem sublima, de quem nasce naquele momento, de quem parte. Terceira condição cruel: quem nasce, parte, quando os cabos esticam, o vento sopra, o leme fixa o rumo e o velame enche, a proa puxa a poupa, como deve ser, mas o parto cega, o parto vela, embacia o rumo, afrouxa a genoa, enquanto sopra forte o Minuano, o mestre genuflecte e genuinamente verga-se no parto.

 

Nua

Fui dar contigo nua no meio do quarto. Não estava à espera daquilo, confesso.

Virada para a janela, em contra luz, a tua silhueta desenhava-te magra, àquela distância sentia que a tua nudez ia congelando o tempo. E sonhava, não parava de sonhar. Tentava ler os sonhos que pairavam por cima de ti, outros como cacos desfeitos ali no chão. Não entrei porque aquele tempo era só teu, porque temi borrar a pintura daquele quadro a duas cores. Fiquei constrangido com a tua figura, semi deusa, emanavas vapor do banho quente e o teu cabelo brilhava, escorria como uma pincelada ainda fresca e delicada. Nunca te contei.

Assim como aquele momento era só teu, aquele quadro era só meu, de ti para mim, sem que soubesses. Ali atrás da porta, por uma frecha, por aquela frecha, podíamos ser tudo, ser até não haver mais tempo, até não haver mais sonhos desfeitos. Sonhei estar ali nu e tu nos meus braços, naquela cama, em frente aquela janela que jorrava luz, juntar-me ao teu calor e juntos descongelarmos o tempo. 

A minha coragem traiu-me não deixou fazer o que devia, o que queria, o que sabia que pedias. Tantos sinais foste deixando, até me levares ali, exatamente onde querias, nem mais um milímetro. Aquele quadro que eu apreciava, eras tu que o pintavas com uma enorme mestria. Sem que eu imaginasse, pintaste-me ali. Foste sempre tu. Esta era a tua última deixa e tinha de ser eu a dar o passo, foi assim que pintaste aquela historia, tu nua a contra luz e eu a ver-te por aquela frecha. Sabias de tudo, sabias que eu estava ali, que te queria, e que me faltava a coragem. 

Sem dizeres uma única palavra, com duas cores, pintaste-me a vergonha atrás daquela porta. E sonhava, continuava a sonhar.

103

Escolhi escrever-te porque passámos muito tempo juntos, em longas viagens, por essa nossa Lisboa. Ainda pouco farta de tanta gente desconhecida que por ela agora passa sem verdadeiramente a conhecer, nem se demorar.

Eras inferno e céu ao mesmo tempo, embora velho e cansado, já naquela altura, levavas-me sempre com carinho de casa da Mãe até casa do Pai. Às vezes atrasado, mas nunca falhavas. Nunca.

Tenho o teu cheiro gravado na memória, indiscritível e inconfundível, não sei se era dos bancos rijos forrados daquela napa castanha a imitar pele, rugosa e gasta, ou da mistura do fedor a diesel com óleo queimado. Se olhássemos com atenção provavelmente conseguíamos ler uma imensidão de destinos ali escritos, gravados na imitação barata, impressos pelo sol de um Agosto qualquer. Tinha-te como porto seguro, como um lugar onde sabia que podia desligar por longos minutos, as vezes horas, não pensar em nada e ter a certeza que quando chegasse, chegava bem.

Gostava especialmente de me aninhar lá atrás nos bancos de quatro lugares, bem em cima do enorme e barulhento motor, era música para os meus pensamentos vagos poderem também eles procrastinar entre o Corpo Santo e Santa Apolónia. Em especial, no teu ventre de calor infernal, trazias-me de volta aos verões abafados do meu Alentejo. Encostado ao teu enorme vidro que vibravaem sintonia com o acelerador do motorista, e no embalo dos silvos pneumáticos do abrir e fechar de portas, sonhei e vivi várias vidas no teu entretanto, no teu regaço.

Gosto de pensar que ainda lá estás, que ainda percorres a nossa Lisboa com a mesma languidez de sempre e que os teus novos passageiros te apreciam tanto como eu. 

Hoje, nesta nossa Lisboa moderna de alcatrão agora estendido, onde antes havia calçada esburacada, temo que não terias lugar e fico obliterado de saudades.

Espero que te encontres bem, embora saiba que o mais provável é que tenhas acabado como um monte de peças ferrugentas num ferro velho qualquer. Guardo a tua imagem na memória para que não me morras. Tu, outrora laranja vivo e branco fuligem, trouxeste-me sempre com carinho de casa do Pai até casa da Mãe.

Obrigado 103!

Frederico.