Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Nua

Fui dar contigo nua no meio do quarto. Não estava à espera daquilo, confesso.

Virada para a janela, em contra luz, a tua silhueta desenhava-te magra, àquela distância sentia que a tua nudez ia congelando o tempo. E sonhava, não parava de sonhar. Tentava ler os sonhos que pairavam por cima de ti, outros como cacos desfeitos ali no chão. Não entrei porque aquele tempo era só teu, porque temi borrar a pintura daquele quadro a duas cores. Fiquei constrangido com a tua figura, semi deusa, emanavas vapor do banho quente e o teu cabelo brilhava, escorria como uma pincelada ainda fresca e delicada. Nunca te contei.

Assim como aquele momento era só teu, aquele quadro era só meu, de ti para mim, sem que soubesses. Ali atrás da porta, por uma frecha, por aquela frecha, podíamos ser tudo, ser até não haver mais tempo, até não haver mais sonhos desfeitos. Sonhei estar ali nu e tu nos meus braços, naquela cama, em frente aquela janela que jorrava luz, juntar-me ao teu calor e juntos descongelarmos o tempo. 

A minha coragem traiu-me não deixou fazer o que devia, o que queria, o que sabia que pedias. Tantos sinais foste deixando, até me levares ali, exatamente onde querias, nem mais um milímetro. Aquele quadro que eu apreciava, eras tu que o pintavas com uma enorme mestria. Sem que eu imaginasse, pintaste-me ali. Foste sempre tu. Esta era a tua última deixa e tinha de ser eu a dar o passo, foi assim que pintaste aquela historia, tu nua a contra luz e eu a ver-te por aquela frecha. Sabias de tudo, sabias que eu estava ali, que te queria, e que me faltava a coragem. 

Sem dizeres uma única palavra, com duas cores, pintaste-me a vergonha atrás daquela porta. E sonhava, continuava a sonhar.