103

Escolhi escrever-te porque passámos muito tempo juntos, em longas viagens, por essa nossa Lisboa. Ainda pouco farta de tanta gente desconhecida que por ela agora passa sem verdadeiramente a conhecer, nem se demorar.

Eras inferno e céu ao mesmo tempo, embora velho e cansado, já naquela altura, levavas-me sempre com carinho de casa da Mãe até casa do Pai. Às vezes atrasado, mas nunca falhavas. Nunca.

Tenho o teu cheiro gravado na memória, indiscritível e inconfundível, não sei se era dos bancos rijos forrados daquela napa castanha a imitar pele, rugosa e gasta, ou da mistura do fedor a diesel com óleo queimado. Se olhássemos com atenção provavelmente conseguíamos ler uma imensidão de destinos ali escritos, gravados na imitação barata, impressos pelo sol de um Agosto qualquer. Tinha-te como porto seguro, como um lugar onde sabia que podia desligar por longos minutos, as vezes horas, não pensar em nada e ter a certeza que quando chegasse, chegava bem.

Gostava especialmente de me aninhar lá atrás nos bancos de quatro lugares, bem em cima do enorme e barulhento motor, era música para os meus pensamentos vagos poderem também eles procrastinar entre o Corpo Santo e Santa Apolónia. Em especial, no teu ventre de calor infernal, trazias-me de volta aos verões abafados do meu Alentejo. Encostado ao teu enorme vidro que vibravaem sintonia com o acelerador do motorista, e no embalo dos silvos pneumáticos do abrir e fechar de portas, sonhei e vivi várias vidas no teu entretanto, no teu regaço.

Gosto de pensar que ainda lá estás, que ainda percorres a nossa Lisboa com a mesma languidez de sempre e que os teus novos passageiros te apreciam tanto como eu. 

Hoje, nesta nossa Lisboa moderna de alcatrão agora estendido, onde antes havia calçada esburacada, temo que não terias lugar e fico obliterado de saudades.

Espero que te encontres bem, embora saiba que o mais provável é que tenhas acabado como um monte de peças ferrugentas num ferro velho qualquer. Guardo a tua imagem na memória para que não me morras. Tu, outrora laranja vivo e branco fuligem, trouxeste-me sempre com carinho de casa do Pai até casa da Mãe.

Obrigado 103!

Frederico.