Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Norte

    Nos dias mais frios o Norte vingava. Parecia nascer do chão, das paredes, penetrava pelas frestas debaixo das portas, transpunha os vidros, expulsava-nos o calor e a paz. Invadia-nos por dentro com todos os tons gélidos daquele azul. O Sul entrava em contração. Era inevitável. 

    O embaciado instalava-se nas nossas bocas, mesmo que não se dissesse uma palavra. E nós, quietos, no meio daquela conversa maluca. Não podíamos fazer nada enquanto o Norte se impunha e se instalava. Era o seu tempo, a sua vez. Cabia-nos recolher os amarelos, os ocres, os laranja vivos, os vermelhos, alguns magentas e deixar os azuis - dos violeta até aos turquesa - entrar.  

    O Norte, não se anunciava, chegava. Rapidamente tudo mudava de cor como se a cor fosse um lugar e como se o lugar tivesse dono. Esse dono era o frio azul tácito e áspero, implacável no seu vingar. E nós, ali no meio daquele negócio surdo, desprovidos de poder. Era sempre assim, já devíamos saber. Sem normas nem desculpas, o Norte, carregava nos seus mantos vindicativos toda a panóplia dos os azuis até aos violetas. O lado mais frio do espectro. Já o Sul esbatia-se em retirada nos tais ocres, envergava nos castanhos suaves a sua derrota e por vezes vociferava em vermelhos enquanto se retraía. Uma conversa dura, sem balanço, era assim o negócio. Incondicional. 

    Sabe que há espectros de cor? Percebe de cor? Há cores do Norte e do Sul. Não se misturam mas às vezes expedem numa migração. No Norte há castanhos corajosos que se camuflam no lado mais frio do espectro. No Sul encontram-se azuis, aqui e ali, uns violeta as vezes, mas são tão vivos quanto uma semi-fusa cheia. Vibram no ir e vir do feixe de crina. É uma língua, todo um idioma, por aprender. E nós aprendemos. Aprendemos a viver no lado não saturado e mórbido do espectro. No morno, onde todas as cores são a sua própria versão esbatida. Ficamos presos no intervalo atónito da mudança dos lados do espectro. Mais ou menos nos verdes, nos entretanto dos amarelos a pender para oscastanhos. 

    Enquanto a luz entra, baixa, devagar e se instala nas paredes, enquanto inunda as estantes, as partículas de pó, as costas despidas que se arrepiam nos últimos raios de sol, do quente, do lado feliz do espectro, a sombra cresce, desce, dobra o ar, verga-lhe o vigor, assenta-lhe o pó e instala o baço azul nas bocas frias, secas, tristes, silenciadas pelo idioma complexo daquele tratado mouco ditado pela inclinação involuntária do eixo. 

     Nos dias mais frios o Norte vingava. Era assim porque era assim, não podíamos fazer nada, já devíamos saber. Só nos restava esperar que o eixo, quando quisesse, nos devolvesse o ocre.