Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Tratado da Divisão

    Ele já não sabia bem quem era. Era a divisão de si próprio numa procura áspera de atalhos. Dividiu o tempo, dividiu o amor e dividiu-se em partes diferentes, umas insípidas, outras de algum valor, cria que sim, que era possível continuar nesse processo, embora provisório, um sem número de vezes. Às vezes traduzia um parênteses de uma frase épica ouvida e repetida com ancestralidade e circunstância. Depois, um dia, numa dessas divisões, a parte mais fraca cedeu e a outra cresceu. 

     Aos poucos, num ritmo muito próprio, a parte que cresceu voltou a dividir-se e de novo a parte mais fraca cedeu, novamente e sem surpresa, a outra cresceu. 

    Um dia separou-se em partes iguais e aí a dúvida surgiu. Nunca se deparara com tal circunstância e sem ancestralidade circunstancial, fincou os pés na terra, olhou em volta e, de peito cheio escolheu uma. 

    Compreenda, meu caro, que a escolha fora tomada em posse de conhecimento resultante do processo divisional e não de uma engenharia decisional. Naquele dia fatídico, aquela decisão aparentemente inócua, uma viragem cardeal, custara-lhe a razão. O tempo dividira-se em quatro: duas manhãs e duas tardes, cada fracção acontecia paralelamente e numa visão do que podia ser a outra, compreendera que não fizera a escolha correcta, tão pouco a divisão certa, nem escolhera o lado bom. 

      E num esforço digno, numa tragédia por acontecer, força a junção das anteriores divisões. Sorte. Estava tudo à mão, um por um, cada pedaço dividido e descartado, os fracos e os menos fracos, foram-se unindo edificando e solidificando, reconstruindo um novo ser, uma nova nau anfitriã de uma coisa toda junta e desconjuntadamente dividida. No fim da tarefa, tudo o que crera e tudo o que fora já não era. Num esgar estéril percebe que depois de tudo, ele já não sabia bem quem era.