Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Tratado das Sombras

    Vamos fazer um negócio, você e eu. Um pacto de luz e sombra. Ando fascinado com esse tema, sabe. Assumimos que não pode haver um sem o outro, verdade? Assim, não haverá você sem a sua própria versão de sombra, caso eu não seja luz. 

     Curioso este movimento que imita o sol: se me baixo, sua sombra cresce, se me levanto, a luz que vem de si diminui-me, decida você se me curvo ou não. Fico quieto e oiço os passos vagarosos do avanço leve do levante que traz o calor, e com ele as sombras longas do fim do dia que deliciosamente preguiçam ao longo das dunas.     

     Assumimos que as sombras preguiçam, e eu com elas, depois, deixo-me adormecer ao som da espuma das ondas que se repetem no afagar das areias mornas, desse sotavento saudosos das nossas sombras nas horas ocre e quente vivo. 

     Pactuamos que eu sou o contrário da minha sombra, e você, luz de si mesma, não é sombra de coisa nenhuma. Erga-se do mar, das dunas, no celeste das manhãs azuis, sem sombras duras, sem luzes ainda muito cruas. Seja contra-luz quando o eixo se inclinar e derramar claridade. Seja silhueta e sombra quando um raio de luz evadido lhe desferir um gentil golpe de calor nas costas nuas. 

     Na hora mais vertical, quando a sombra se desenhar em poucos traços, pactuamos, você e eu, na areia molhada, uns segredos lavrados com a ponta dos dedos. Acha que conseguimos gravar sombras na areia, deixá-las impressas no ir e vir das ondas, no levante, no sussurro e pacato? E que ali se faça da sua sombra meu refúgio? Seria enorme, essa grafia.

     Deixe-me desenhar a sua luz na areia, pode ser que fique ali para sempre, que se transforme em rocha sólida e que dela nasça sombra. A sombra nasce e morre todos os dias no preciso movimento do eixo. Todos os dias à mesma hora, no mesmo sítio, damos um abraço, e um dia, daqui a muitos, claro, a nossa sombra lá vingará em ocres e violetas, azuis celestes, e preguiçará nas dunas, ou debaixo da espuma das ondas, ou no amarelo da areia lavada em marés de saudade que me curvam perante sua tamanha luz. Se você for luz, eu, serei assombro. Pactuamos?

Indivisibilidade Da Luz

    Dividem-se as coisas em partes iguais, outras diferentes, tanto faz. Abrem-se fendas para que entre o calor, para que se deixe invadir de luz. Das luzes do saber e do sim. Por entre a fenda maior jorra vida em estado luz, em estado alma, em estado paz. Não sabia que a luz podia ter estados, mas tem, eu vi, senti-os quando me abraçou, quando se curvou para me rodear e num breve esgar me assombrou. Nunca uma sombra foi tão luz. Só há uma condição se houver, ao mesmo tempo, a sua negação: sombra, luz, sim e não. 

   Divide-se o dia da noite. O sol da lua. Eu de ti. Divide-se a água do fogo, a terra do ar e as montanhas separam-se, ao longe, da planície. Abrem-se fendas e dividem-se os continentes, rasgam-se oceanos entre nós e o mar, que de tão imenso, ganha um nome. Afinal nada se transforma e tudo se divide. Incrível.

   Separamos um raio de luz e fazemo-lo passar entre nós, no nosso espaço entretanto dividido, e por gravidade ou por uma magia cósmica, imaginemo-lo sem rodeios, à nossa volta, envolvendo-nos de si próprio. 

    Essa finita fonte de luz jorra vida, enquanto eu, num movimento lento, me afasto da sombra e me empurro sozinho sem medo algum, da treva, do não, do não nós. Um dia findará, essa dita fonte, e não sei se primeiro eu ou a luz, dividir-nos-emos em ciclos suaves. Houve em tempos uma versão do não nós que se resolveu, noutra forma, noutro dia e noutra noite, entretanto há um alísio que sopra vertical sobre as ondas de sal, vagas lentas, tempestades, e reinará o escuro, o não, ou um singelo sim no ténue firmamento. Como tudo é frio nesta frase.

     Na divisão das coisas ficou por separar o meu espanto por ti. Indivisível como o som das sombras escondidas atrás de nós enquanto enfrentamos, de pé, a luz. Sempre, nas avessas das coisas indivisíveis, há uma possibilidade de sim e outra de não. Por isso são assim, tão misteriosas e contrárias, as sombras longas nas luzes baixas. Chamem um tal de siroco, e ele, que de um fôlego só, leve e separe uma frase em partes iguais e as espalhe por continentes desunidos à sombra fria contrária da luz. Que se erga ao meio-dia e elimine, o mais que poder, em toda sua verticalidade, a sombra gélida da separação. 

    Assim, por decreto divino, que se una o separado e se preencha o dividido. Que se funda a sombra com a luz, que as arestas cruas, tão finas e longas,  tão distantes e sombrias, se suavizem em laivos quentes num sopro austro levee consequente. Que traga, por fim, essa luz, paz em mantos sólidos e cobertas estanques de união infinita entre o eu solidificado e o resto do mundo, em graça, unificado. 

 

Peso

    

 

    Podia ficar uma eternidade debaixo dela. O seu peso, em cima de mim, era como uma manta sólida de apego doce. Depois de tudo, podia continuar à espera, à sua espera, até que as luzes se calassem. O simples e demorado peso nu sobre o meu destino, vagamente impresso nos lençóis, condensava aquela hora num suspiro tremendamente fundo. 

    Era a coisa que mais ansiava, aquele quente, pesado, dos seus seios pousados no meu peito, aberto, e um suspiro, um silvo, mel, nos meus ouvidos. Deixei-lhe uns quantos poemas escritos nas costas, outros nas suas coxas, uns com a ponta dos dedos, os mais doces, alguns de mão cheia, assim de carnais, enquanto esgrimíamos amor, ao sol, à chuva, nunca no frio, sempre à sombra do azul. 

    Não era só o seu peso, o seu cheiro e o seu encanto, eram todos os gestos delicados e precisos, a cuidada coreografia que se desenhava no colchão, no chão, nas paredes, e às vezes só em abraços, ternos, juntos ao azul da janela.    Podia ficar uma eternidade preso numa lágrima derramada por amor, por amor depois de feito. Era o depois, só o depois que importava. O peso do depois. O peso do que acabara de se fazer. O amor pesava mais depois de feito, tinha o peso dos gestos, dos gritos, da dor e do prazer, das mãos cravadas na carne, dos segredos contados nos olhos, do sabor do suor, dos lábios mordidos e cabelos puxados, das camisas arrancadas e dos beijos molhados, da mão na mão e da mão no dentro.

    Podia ficar uma eternidade, ali debaixo, prensado contra o chão, contra os lençóis, junto ao imenso azul que brotava da janela. Era todo aquele peso, do amor depois de feito, dos seus seios suados, de uma eternidade condensada numa hora gasta entre paredes surdas e azuis de mil tons, que repousado no meu peito me entregava luz, paz em laivos quentes. 

    Eu, feito e crescido em parte incerta, guardava cada hora parca naquele azul, como se âncoras arrastadas em leitos lisos, em lençóis ensopados no peso do orvalho acabado de condensar.         

    Debaixo dela, podia ficar tantas horas quantas o infinito conseguisse guardar na forma liquida de uma lágrima derramada por amor depois de feito.

     Podia continuar à espera, à sua espera, prensado pelo suave azul. Aguardava debaixo dos lençóis, juntando minutos em horas, horas em dias de espera áspera, só para voltar a ter o seu quente na minha boca, ali, imerso no imenso silêncio das luzes apagadas, no amor fundo, depois de feito.

 

Lapso, tempo e métrica

     Baixava sobre eles, naquele dia, uma pressa imensa. Era uma urgência sem precedentes, uma velocidade desproporcionada com os vagarosos gestos normais do dia a dia. Os comboios, nos apeadeiros, não esperavam mais que uns meros segundos. Os autocarros carregados de sonhos, alguns desfeitos, traziam os minutos contados e os segundos milimetricamente cronometrados. Não havia, nunca, tempo a perder, centímetro algum a ceder. 

    As gaivotas voavam apressadas, batiam as asas, afoitas, numa pressa ininterrupta, grave, como se não houvesse mais ar à sua frente. Os pombos, da mesma forma, traziam pragas à cidade e anunciavam desgraças quando pousavam em determinados sítios. Se pousavam no parapeitos traziam chuva, se nas gárgulas, granizo, se nas soleiras das portas, o sol. 

     Os mercados roubavam horas na sua preparação métrica, por isso, tinham de estar a postos quando abrissem, começavam cedo, nas ante-vésperas das noites. Sítios carregados de nervos, de suor, de longas e apressadas caminhadas, de vésperas mal dormidas, de promessas por cumprir. Há sítios onde as promessas se gastam com a  pressa de não se cumprirem.

    Naquele dia, os relógios atrasavam, os registos não funcionavam e o comboio vinha uns milímetros atrasado. Um milímetro, ali, podia transformar-se num metro inteiro ao final do dia. Era grave essa transformação. Eles, continham a pressa em breves suspiros, acumulavam tensão nos ombros e no bater das biqueiras dos sapatos à beira das plataformas. Um frenesim atónito, no mascar, nas bocas impacientes. No atirar das beatas para a linha. 

     As marés aceleradas traziam o lixo do mar, quatro ou cinco vezes ao dia, era impossível apanhar o ritmo. As margens apinhavam os detritos daquela imprudência toda e havia afluentes já entupidos. Nas pontes dolorosamente carregadas de celeridade, pesavam as horas, vibrava-se em sofreguidão e calcava-se as fundações, já frágeis, da hombridade fraterna entre pendulares.

     O movimento que outrora ansiava duas vezes por dia, repetia-se agora sete. Com tendência para chegar às oito, nos dias quentes. Nesses dias havia sempre mais premência, os que nunca saíam nos dias frios engrossavam aquela azafama doentia, já de si, incrivelmente voraz. 

    Quando o frio se impunha, emperrava as engrenagens da instância, mas pouco, abrandava-as só por uns segundos, daí degeneravam uns milímetros que, ao final do dia, com sorte, ditava um atraso na matriz. Havia quem gostasse, havia quem odiasse. Era assim, sempre fora, sempre será. O tempo rotina, e a rotina acelera o tempo. Havia quem o sentisse na pele, outros que o viam no reflexo baço das lentes côncavas de si mesmas. 

     Compreendiam as diferentes velocidades do prazo, dependendo, da inclinação do eixo. No entanto, as rotinas, as ânsias, as trigas não esperavam por centímetros dilatados em gestos imprecisos. Tinha de haver uma precisão incrível nos gestos, nas passadas, na espera, na batida frenética das solas ásperas, nos passeios, nas chaves que abriam as portas e nas réguas doces, frívolas, de minutos tácitos, trocados por uns meros centímetros ao final do dia.

     O tempo era tudo isso, naquele dia, em exclusivo, trocava-se por milímetros, por centímetros, por uns metros. Quem pudesse. Sabiam que, ao final da uma vida, acumulando milímetro a milímetro, podiam troca-los por uns segundos, por minutos, por uma hora a mais. Quem podia alavanca aquela poupança que dilatava momentos, com os seus, no dia antes de partir.

 

    

Tratado Adjudicado

Há uma ideia em construção nas fronteiras da sabedoria onde floresce a cegueira, essa planta autóctone do hipocampo menstruado. Tratemos a ideia como um todo, uma flor, um grito mudo, uma citara ocre que desfere umas notas em azul. Uma música sem cor, uma flor sem caule, um dente sem raíz. Outrora havia razão na pele eriçada, no áspero arrepio calafrio que gelava o dorso. Mas isso foi há muito tempo, quando a ideia fervilhava na medula. Se há luz na ideia, à sobra na ignorância feliz de infantilidade fútil, mas apreciada, austera de azuis profundos no baixo ventre infértil de sinapses fulgurais. Fujamos então das anorexias cerebrais, e que degenerem, por sua vez, em hemorragias verbais, que se calem os rouxinóis, que assobiem os pardais nos parapeitos da sabedoria guardada na oralidade vertical da maternidade paralela na língua apátrida. Articule-se um laivo, um soslaio de sobrolho, uma ruga na testa enquanto se coça um pobre cabelo. Ideia calva, fértil ignorância de um rebento aromático em estágio precoce. Sugere que enche, perde-se numa virgula, desencontra-se no ponto. Contrapõe um argumento, atira uma posta, aceita um senão quase sem condição. Não era para rimar mas rimou. Paciência… Deixa-se a ideia entregue ao acaso, há de sofismar, interpolar e vingar, há de ganhar pernas e aprender aandar: é só uma questão de tempo.

    • Quero uma coisa, assim, simples mas sofisticada. Entende?
    • Podemos sempre por um turbante. Torna-se mais complexo. Por exemplo. Concorda? É actual, “étnicorgânico”, assim meio isso, não?
    • Quero uma ideia original, nunca d´antes vista, ouvida ou lida. Uma radiografia cósmica regurgitada num erro fácil. Hum?
    • Genial! Sofisticadamente simples. Ignóbil besta hexagonal.

Num gesto ténue, fraco de luminosidade, esbanjamos horas falsas nas mesas frias do conhecimento fraternalmente dividido pelos cacos desfeitos da ignorância instalada. Vai um copo de água? Uma epidural anal para que seja mais fácil defecar apenas por gravidade? Hum? Fechamos um triângulo escaleno num retângulo esdrúxulo, tudo num demorado aperto de mão? Isso… Boa ideia. Adjudique-se a banalidade.

As Pontes

    Nas ruas ninguém ligava a ninguém, era assim porque era assim. Sempre fora, não me lembro de ser diferente. Havia uns tipos, às vezes, que vinham de longe, das aldeias mais distantes, e que nos primeiros dias ainda se espantavam com a indiferença que ali teimava. Mas com o passar do tempo também eles se tornavam indiferentes. Toleravam aquilo como se tolera uma picada de mosquito. Havia pontes enormes com gente debaixo, prédios grandes com gente dentro, e ruas cheias de gente mas vazias de pessoas. As gentes corriam daqui para ali, sempre com pressa, para chegar a lugar nenhum. Corriam do vazio para o nada e aquilo tolerava-se como se tolera uma picada de mosquito. Eram massas de gente, andavam em bloco, faziam um barulho ensurdecedor duas a três vezes por dia. Mesmo quando os mosquitos picavam incessantemente - e se picavam! - ao fim de algum tempo tornava-se tolerável, deixávamos de sentir e de coçar. Como os ratos, que se comiam quando não havia mais nada para por no bucho. 

    Havia os carros também, afinal era uma metrópole, tinha de ter carros e comboios, metro, aeroporto, heliporto e mesmo um porto. Do porto sabia, era enorme, atracavam lá cargueiros que continham um mote de inutilidades. Sabia deles, via-os nas nuvens de barulho distantes e vagas, ouvia-lhes o guinchar metálico e as sirenes longas quando ecoavam nos pilares da ponte. Era uma coisa imensamente cheia de vazio. Porque haveriam coisas cheias de vazio? 

    As gentes eram de todos os tamanho e feitios. Havia gente alta e de barba, baixos e carecas, gordas, outras eram feias e outras eram bonitas e loiras, algumas morenas, e umas ruivas. Lembro-me bem da ruiva, nessa altura, era fogo ignição. Debaixo da ponte pequena, chamavam-lhe assim porque só tinha dois pilares, havia um sítio quente onde a ruiva dormia, e por vezes ela, lá está, tolerava-me. E eu a ela. Nunca soube o seu nome mas sabia-lhe o cheiro e sentia-lhe o fogo. Depois havia o barulho, o zumbido, aquilo deixava-me cego quando era mais forte. Nesses dias ficava mais quieto porque o barulho confundia-me os sentidos. Ali, debaixo da ponte, era o que podia chamar de casa. Nunca tinha visto uma e não fazia ideia de como eu tinha ido ali parar, nem porque não tinha uma casa. Estava ali e era assim, porque sim, desde sempre, desde que me lembrava. Não me lembrava de nada antes das pontes. 

    Quando a ponte foi destruída tivemos, a ruiva e eu, de encontrar outro lugar, mas todos os cantos estavam cheios, todos ocupados, e no caminho, na busca árdua, perdi-lhe o rasto, nunca mais a encontrei. Às vezes parecia que a via. O seu cheiro era inconfundível. Mas aquele cheiro, que às vezes sentia, era de outras ruivas, não da minha ruiva, ela não cheirava assim e nunca mais a encontrei. Era o que achava poder ser parecido com o cheiro de mãe, nunca tive mãe, e acabava de perder o que de mais parecido há com uma. O cheiro dela era-me confortável com deve ser o de uma mãe, não sei. Mas devia ser. 

    Chegavam-me ao nariz outros cheiros, cheios de outras coisas, naquela nova parte da cidade, naquela ponte nova. Deixavam-me confuso, era tudo novo, tinha de aprender tudo outra vez. Os caminhos, os contentores, as ruelas e becos, os abrigos e o caminho de volta aos pilares. Perto dos pilares era seguro. 

    Na ponte, na ponte nova, eu, costumava ficar debaixo do segundo pilar, o mais alto, nos outros mais abrigados não me toleravam e não havia ruivas. Quando chovia era como se tivesse debaixo de nada. Ali a chuva, tinha outro toque, era mais áspera. Molhava da mesma maneira, mesmo quando ficava de cócoras encolhido para não arrefecer. Quando chovia, ainda hoje é assim, tudo mudava, era como se pusesse uns óculos e via tudo mais limpo, mais lavado, e mais nítido. O som também era diferente, os barulhos amplificados pelo molhado das paredes faziam-me ver mais longe, como se tivesse uns binóculos, conseguia ver para lá do quarto pilar da ponte grande. Era como se os sons da cidade escorregassem melhor, chegavam-me mais agudos, mais rápidos e de mais longe. 

    Fazia frio intenso debaixo da ponte, nos becos era mais abrigado, quando havia lugar, claro. Eu era pequeno e cabia no meio dos outros, era tolerado vá. As gentes não eram más, aquilo que eu não via, também não conhecia. Só tinha medo do que conhecia, mas como conhecia pouco, o medo não era muito. 

    Os neutros, sim, os que não cheiravam nem bem nem mal, deixavam de vez em quando cair uns trocos que ouvia a tilintar como prata vinda do céu, era raro mas acontecia.  Os neutros eram invisíveis, quase, só os sentia já muito perto. Depois ia a correr trocar por pão. Não percebia bem a lógica da coisa, trocar ferro frio - dos bolsos alheios - por pão quente, mas era assim e era bom, era um conforto. O que era mau eram as pisadelas, os gordos pisavam muito, pareciam não ter olhos, nem saber para onde iam. Eu já lhes conhecia bem as passadas pesadas e fugia delas, aprendi da pior maneira quando um gordo, bem gordo e mal cheiroso, me pisou de tal forma que coxeie durante muito tempo. Durou bastante, dos dias frios até chegarem os dias quentes, sempre a coxear, foi duro. 

    Adorava os dias quentes. Acontecia sempre qualquer coisa de especial e parecia haver menos gente e menos barulho. As massas de passos apressadas a caminho dos seus vazios parecia mais branda, era tudo mais clamo, e, obviamente quente.  Um dia desses, um dia quente, pousaram umas suaves, delicadas, toque algodão, em cima das minhas. Eram em nada semelhantes com alguma coisa que tivesse tivesse sentido noutras mãos. Na verdade não conhecera muitas mãos. Era uma pele que não parecia pele, e o cheiro, o cheiro era maternal, muito maternal,  não sabia que o maternal cheirava assim. Era um cheiro de ruiva lavada, mas muito familiar… Muito familiar. Fran era o seu nome. Eu não tinha nome, ouvia ás vezes chamarem por cego, puto, mas não sabia se era o meu nome, nem o que era cego ou puto. Fran tinha cheiro de ruiva. Mas não era uma ruiva qualquer. Era o cheiro da minha ruiva! 

 

    Encontrou-me e mostrou-me o seu nome nas palmas das minhas mãos, sem me dizer uma palavra, ela não falava, nunca lhe conhecera a voz, mas cheirava a bem, cheirava a paz, a mãe. Levou-me, dali, para novos cheiros e toques, ruídos e temperaturas, não conhecia coisas quentes nos dias frios, nem o contrário. Conhecia pouco. Só conhecia o que vira até então, o que vira através da ponta dos dedos, do arrepio da pele, do farejar do meu nariz e dos ruídos, havia muita coisa para se ver nos ruídos. Mas não sabia que os olhos eram para ver. Eu afinal via tudo. Via ruivas e loiras e gordos e gentes tolerantes a ignorarem-se uns aos outros nos caminhos vazios. Via que a tolerância era igual a indiferença, via que eu era paisagem, eram todos cegos pela tolerância. Via a pressa nos ritmos, duas a três vezes por dia, via o frio como manto nas noites silenciosas, via o vazio debaixo daquelas pontes magras. Via tipos que vinham de longe em magotes, todos juntinhos, e rapidamente dissipavam-se na indiferença, via o amargo nos passos ruidosos apressados e no molhado das paredes, via, as gentes cheias de vazio. 

    Depois da ruiva me encontrar, deixámos as pontes e vagueámos para um sitio calmo. Havia árvores, altas e bicudas, bem verdes e melodiavam ao vento. Havia silêncio, muito silêncio. Um silêncio muito doce e cheio de cor. Tinha, agora, uma panóplia completamente nova de cheiros e toques, não havia becos nem ruelas. O cimento dava lugar à relva e a terra cheirava a fresco quando chovia, o cheiro da terra chovida era incrivelmente maternal. Um edifício alto carregado de trepadeiras, orquídeas, rosas, alecrim, tulipas, centáureas-menores muito azuis, crisântemo bola - brancos e amarelos - e sobretudo carregado de muita cor, cada pétala contém um cheiro carregado de cor. Eu perdia-me nos cheiros de cada cor. 

Fran estava cansada, já a conhecera assim, e ali, desvaneceu-se no colorido das flores, no verde da relva, no azul do céu e no silêncio melódico. No verde, no amarelo, no azul e no distante murmúrio cru da metrópole e das suas pontes.

 

 

Norte

    Nos dias mais frios o Norte vingava. Parecia nascer do chão, das paredes, penetrava pelas frestas debaixo das portas, transpunha os vidros, expulsava-nos o calor e a paz. Invadia-nos por dentro com todos os tons gélidos daquele azul. O Sul entrava em contração. Era inevitável. 

    O embaciado instalava-se nas nossas bocas, mesmo que não se dissesse uma palavra. E nós, quietos, no meio daquela conversa maluca. Não podíamos fazer nada enquanto o Norte se impunha e se instalava. Era o seu tempo, a sua vez. Cabia-nos recolher os amarelos, os ocres, os laranja vivos, os vermelhos, alguns magentas e deixar os azuis - dos violeta até aos turquesa - entrar.  

    O Norte, não se anunciava, chegava. Rapidamente tudo mudava de cor como se a cor fosse um lugar e como se o lugar tivesse dono. Esse dono era o frio azul tácito e áspero, implacável no seu vingar. E nós, ali no meio daquele negócio surdo, desprovidos de poder. Era sempre assim, já devíamos saber. Sem normas nem desculpas, o Norte, carregava nos seus mantos vindicativos toda a panóplia dos os azuis até aos violetas. O lado mais frio do espectro. Já o Sul esbatia-se em retirada nos tais ocres, envergava nos castanhos suaves a sua derrota e por vezes vociferava em vermelhos enquanto se retraía. Uma conversa dura, sem balanço, era assim o negócio. Incondicional. 

    Sabe que há espectros de cor? Percebe de cor? Há cores do Norte e do Sul. Não se misturam mas às vezes expedem numa migração. No Norte há castanhos corajosos que se camuflam no lado mais frio do espectro. No Sul encontram-se azuis, aqui e ali, uns violeta as vezes, mas são tão vivos quanto uma semi-fusa cheia. Vibram no ir e vir do feixe de crina. É uma língua, todo um idioma, por aprender. E nós aprendemos. Aprendemos a viver no lado não saturado e mórbido do espectro. No morno, onde todas as cores são a sua própria versão esbatida. Ficamos presos no intervalo atónito da mudança dos lados do espectro. Mais ou menos nos verdes, nos entretanto dos amarelos a pender para oscastanhos. 

    Enquanto a luz entra, baixa, devagar e se instala nas paredes, enquanto inunda as estantes, as partículas de pó, as costas despidas que se arrepiam nos últimos raios de sol, do quente, do lado feliz do espectro, a sombra cresce, desce, dobra o ar, verga-lhe o vigor, assenta-lhe o pó e instala o baço azul nas bocas frias, secas, tristes, silenciadas pelo idioma complexo daquele tratado mouco ditado pela inclinação involuntária do eixo. 

     Nos dias mais frios o Norte vingava. Era assim porque era assim, não podíamos fazer nada, já devíamos saber. Só nos restava esperar que o eixo, quando quisesse, nos devolvesse o ocre.

Tratado peregrino

Quero viajar dentro de ti. Não na tua alma, isso é banal, mesmo dentro de ti. Somos galáxias imensas, tu e eu, à espera de colidirmos um com o outro, um no outro. Não se pode ter tudo, dizem, mas eu quero o teu todo, o teu inteiro e o teu vazio, o teu cheio de mim. Sabes o que acontece quando duas galáxias colidem? Eu também não, mas quero ver, quero saber, quero explodir contigo, em ti, quero desconcertar tudo o que há de certo nas orbitas normais, nas gravidades previsíveis e quebrar esse silêncio monótono que sufoca os quotidianos e os meridianos. Percebes de meridianos? Eu também não.

Quero viajar dentro de ti, pelas tuas mais latentes estrelas e mares gelados das luas mais recônditas por descobrir. Somos tudo por acontecer e seremos tudo por descobrir se partirmos agora mesmo, há urgência no que digo porque o tempo, nesta viajem, não é linear, não foi estudado, tem outra unidade outra medida, outra dimensão, a do que couber na nossa bagagem, a medida do que sonharmos ser, a medida do tamanho da nossa colisão.

Quero viajar nas tuas hesitações e certezas vagas, porque nesta viajem nada é certo, depois da enorme colisão não sabemos o que restará, se é que restará alguma coisa. Podemos demorar uma eternidade num só segundo se ficarmos de olhos fixos um no outro enquanto subimos, enquanto descolamos desta gravidade pesada que nos prende a este chão áspero. Quero ascender contigo e encontrar o vácuo, o não atrito e pairar com toda a leveza condensada num só gesto, o gesto de um beijo sem gravidade alguma. Quero beijar-te nesse silêncio, sem entropia entre a minha boca e a tua, só assim um beijo é completo, e eu, quero beijar-te completamente! Compreendes agora a urgência? Podemos tornarmo-nos peregrinos nos nossos próprios imensos, nos nossos cheios, eu de ti e tu de mim. Seremos pele una, alma una,  no que restar da intemporal viajem de descoberta, ser um universo condenado a um beijo só, mas então, completo.