Words

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então, aqui se escrevem por mil palavras, no mínimo, uma imensidão de imagens. É o principio de uma viajem pelas letras, entre linhas e parágrafos, a tentativa de por o mundo no papel de uma forma, pelo menos para mim, diferente do meu porto seguro. Tentemos!

Bons Sonhos

    Dás-me guarida nos teu sonhos? É que eu já não sei sonhar. Já perdi a conta aos sonhos que não vivi e não me lembro onde guardei os que te ofereci. Num sono profundo, talvez?

    Gostava de voltar a saber sonhar, mas para isso preciso que me ensines, que me mostres como se faz. Dormir não chega, já tentei vezes sem conta, é sempre assim, acordo e os meus olhos enchem-se de luz vazia, luz fria e estéril. Não sobra nada, apenas umas marcas no lençol remexido, entorpecido, suado, mas do sonho, esse vadio, nada.

      Foi naquele dia de céu ofegante e luz castanha que deixei de sonhar. Lembro-me de um par de nuvens que me perseguia de casa ao trabalho e de volta ao final do dia. Quando me deitei na almofada cansada, oca companheira e guardiã de outros sonhos perdidos, a minha cabeça pesava. Desde aquela noite seca não sonhei mais. Seria do peso?

    Dei por mim, vago, ébrio, mendigava sonhos a um estranho qualquer, por leve que fosse, por pouco que durasse, só pedia um laivo, uma lasca de sonho, um assomar por segundos, um reflexo, uma conversa. Nada, ninguém, fui dormir.

    Quando acordei, sabia que não tinha sonhado, de novo, aliás nada de novo, sabia que o que vivera era real e já em pouco ou nada se distinguia o dia da noite, o sol da lua, a tua boca da minha e, do sonho, esse vadio, nada.

    Até que encontrei uma vidente, leu-me a mão e disse-me que voltaria sonhar um dia, mas tinha de me esforçar. Era cega, mas leu-me a mão, estaria ela a sonhar? Invejo quem sabe sonhar, os que sonham alto e quem num sono vive uma vida, os que sonham de pé acordados, os que sonham no amanhã e os que sonham e que só sonham e que só sonham…   

     Podíamos encostar as nossas cabeças a ver se algum se pega. Disse-me a vidente cega que teria de ser debaixo de um céu gentil com uma luz morna. Não poderia haver nuvens nem estranhos à nossa volta. Não. Teria de ser perfeito, debaixo de uma araucária bem velha e de tronco grosso, elas sabem muito, mas isso da perfeição não existe pois não? 

     Bem velha porque será sábia, saberá a pergunta e a resposta, saberá que a minha idade é só um breve suspiro na sua existência e eu uma breve insistência no seu respiro. Saberá que não importa o que se sonha desde que se sonhe, mas eu, há muito que já não sei sonhar.

     Dás-me guarida num sonho teu? Prometo que fico tão silencioso quanto um trovão, observo-te ao longe como a vidente cega e no final abraço-te, debaixo de um céu casto, à sombra do longo tronco grosso da velha e sábia araucária.

    

Talvez?

     Gosto quando as palavras me escorregam das mãos. Quando caem, algumas desfazem-se em cacos, outras ainda inteiras, disfarçam a pancada seca da queda. Gosto de as apanhar e recompor os pedaços e os fragmentos aleatórios espalhados pelo chão. Com sorte, alguns, alinham-se numa frase, quando fazem sentido aproveito o que me mostram. No outro dia, de uns cacos soltos acabados de cair, fiz um texto inteiro, por magia, as palavras soltaram-se e espalharam-se no chão e uma prosa alinhou-se mesmo à minha frente. Corri e apanhei palavra por palavra, voltei a alinhar tudo no papel tal como estava no chão. Depois corri outra vez e fui buscar mais uns cacos que ali restavam, acrescentei-as ao texto, era uma composição, ficou pronta e não a li mais. 

     Peguei nela e dispu-la na parede, em género de quadro, com moldura e tudomas nunca mais a li e, confesso, até me esqueci. Noutro dia, por acaso, o quadro soltou-se e desfez-se no chão. As palavras, outra vez, despedaçaram-se, dispuseram-se, ajeitaram-se e a prosa perdeu-se. Uma prosa obra do acaso, não lida, não guardada e para sempre perdida.

      Depois disso, sempre que me escorrega uma palavra fito-a por longos minutos, memorizo a sua posição para que não se perca no espaço nem no tempo. Tem algo de poema, uma palavra que escorrega das mãos, algo de místico, etéreo e metafísico. No outro dia escorregou-me um palavrão, daqueles que fazem corar, ali ficou, e mais uma vez fitei-o por longos minutos enquanto fixei a sua posição. Estava de lado, estendia-se longitudinal à parede, e ali ficou. Fui dormir e depois de acordar ele já não estava lá - o mal criado - mas ainda bem, pois logo pela manhã não me apetecia corar.     

      Gosto quando as palavras me escorregam das mãos, quando se alinham e me dizem alguma coisa, uma mensagem, uma viagem, uma lição, uma pergunta ou uma afirmação. Há sempre alguma coisa a reter de uma palavra que se atira para o chão. Ela não caem assim, escorregam, soltam-se e depois como quem não quer nada lá nos desejam boa viagem ou qualquer outras coisa. 

      No outro dia escorregou-me um não. Fique logo aflito. Um não assim sozinho é perigoso e hesitei em pegar-lhe. Fitei-o por longos momentos e ele não se mexeu. Fitou-me de volta em provocação. Jogámos por mais algum tempo e depois mexeu-se, seria o vento? Mas um não não se mexe só com vento, não. Que provocador. Abri uma gaveta, onde havia umas palavras avulso e de lá, tirei um sim. Juntei-os longitudinalmente e fui-me embora. Nunca mais os vi, fundiram-se num talvez e foram felizes para sempre!

 

Tratado da Divisão

    Ele já não sabia bem quem era. Era a divisão de si próprio numa procura áspera de atalhos. Dividiu o tempo, dividiu o amor e dividiu-se em partes diferentes, umas insípidas, outras de algum valor, cria que sim, que era possível continuar nesse processo, embora provisório, um sem número de vezes. Às vezes traduzia um parênteses de uma frase épica ouvida e repetida com ancestralidade e circunstância. Depois, um dia, numa dessas divisões, a parte mais fraca cedeu e a outra cresceu. 

     Aos poucos, num ritmo muito próprio, a parte que cresceu voltou a dividir-se e de novo a parte mais fraca cedeu, novamente e sem surpresa, a outra cresceu. 

    Um dia separou-se em partes iguais e aí a dúvida surgiu. Nunca se deparara com tal circunstância e sem ancestralidade circunstancial, fincou os pés na terra, olhou em volta e, de peito cheio escolheu uma. 

    Compreenda, meu caro, que a escolha fora tomada em posse de conhecimento resultante do processo divisional e não de uma engenharia decisional. Naquele dia fatídico, aquela decisão aparentemente inócua, uma viragem cardeal, custara-lhe a razão. O tempo dividira-se em quatro: duas manhãs e duas tardes, cada fracção acontecia paralelamente e numa visão do que podia ser a outra, compreendera que não fizera a escolha correcta, tão pouco a divisão certa, nem escolhera o lado bom. 

      E num esforço digno, numa tragédia por acontecer, força a junção das anteriores divisões. Sorte. Estava tudo à mão, um por um, cada pedaço dividido e descartado, os fracos e os menos fracos, foram-se unindo edificando e solidificando, reconstruindo um novo ser, uma nova nau anfitriã de uma coisa toda junta e desconjuntadamente dividida. No fim da tarefa, tudo o que crera e tudo o que fora já não era. Num esgar estéril percebe que depois de tudo, ele já não sabia bem quem era.

    

Tratado das Sombras

    Vamos fazer um negócio, você e eu. Um pacto de luz e sombra. Ando fascinado com esse tema, sabe. Assumimos que não pode haver um sem o outro, verdade? Assim, não haverá você sem a sua própria versão de sombra, caso eu não seja luz. 

     Curioso este movimento que imita o sol: se me baixo, sua sombra cresce, se me levanto, a luz que vem de si diminui-me, decida você se me curvo ou não. Fico quieto e oiço os passos vagarosos do avanço leve do levante que traz o calor, e com ele as sombras longas do fim do dia que deliciosamente preguiçam ao longo das dunas.     

     Assumimos que as sombras preguiçam, e eu com elas, depois, deixo-me adormecer ao som da espuma das ondas que se repetem no afagar das areias mornas, desse sotavento saudosos das nossas sombras nas horas ocre e quente vivo. 

     Pactuamos que eu sou o contrário da minha sombra, e você, luz de si mesma, não é sombra de coisa nenhuma. Erga-se do mar, das dunas, no celeste das manhãs azuis, sem sombras duras, sem luzes ainda muito cruas. Seja contra-luz quando o eixo se inclinar e derramar claridade. Seja silhueta e sombra quando um raio de luz evadido lhe desferir um gentil golpe de calor nas costas nuas. 

     Na hora mais vertical, quando a sombra se desenhar em poucos traços, pactuamos, você e eu, na areia molhada, uns segredos lavrados com a ponta dos dedos. Acha que conseguimos gravar sombras na areia, deixá-las impressas no ir e vir das ondas, no levante, no sussurro e pacato? E que ali se faça da sua sombra meu refúgio? Seria enorme, essa grafia.

     Deixe-me desenhar a sua luz na areia, pode ser que fique ali para sempre, que se transforme em rocha sólida e que dela nasça sombra. A sombra nasce e morre todos os dias no preciso movimento do eixo. Todos os dias à mesma hora, no mesmo sítio, damos um abraço, e um dia, daqui a muitos, claro, a nossa sombra lá vingará em ocres e violetas, azuis celestes, e preguiçará nas dunas, ou debaixo da espuma das ondas, ou no amarelo da areia lavada em marés de saudade que me curvam perante sua tamanha luz. Se você for luz, eu, serei assombro. Pactuamos?

Indivisibilidade Da Luz

    Dividem-se as coisas em partes iguais, outras diferentes, tanto faz. Abrem-se fendas para que entre o calor, para que se deixe invadir de luz. Das luzes do saber e do sim. Por entre a fenda maior jorra vida em estado luz, em estado alma, em estado paz. Não sabia que a luz podia ter estados, mas tem, eu vi, senti-os quando me abraçou, quando se curvou para me rodear e num breve esgar me assombrou. Nunca uma sombra foi tão luz. Só há uma condição se houver, ao mesmo tempo, a sua negação: sombra, luz, sim e não. 

   Divide-se o dia da noite. O sol da lua. Eu de ti. Divide-se a água do fogo, a terra do ar e as montanhas separam-se, ao longe, da planície. Abrem-se fendas e dividem-se os continentes, rasgam-se oceanos entre nós e o mar, que de tão imenso, ganha um nome. Afinal nada se transforma e tudo se divide. Incrível.

   Separamos um raio de luz e fazemo-lo passar entre nós, no nosso espaço entretanto dividido, e por gravidade ou por uma magia cósmica, imaginemo-lo sem rodeios, à nossa volta, envolvendo-nos de si próprio. 

    Essa finita fonte de luz jorra vida, enquanto eu, num movimento lento, me afasto da sombra e me empurro sozinho sem medo algum, da treva, do não, do não nós. Um dia findará, essa dita fonte, e não sei se primeiro eu ou a luz, dividir-nos-emos em ciclos suaves. Houve em tempos uma versão do não nós que se resolveu, noutra forma, noutro dia e noutra noite, entretanto há um alísio que sopra vertical sobre as ondas de sal, vagas lentas, tempestades, e reinará o escuro, o não, ou um singelo sim no ténue firmamento. Como tudo é frio nesta frase.

     Na divisão das coisas ficou por separar o meu espanto por ti. Indivisível como o som das sombras escondidas atrás de nós enquanto enfrentamos, de pé, a luz. Sempre, nas avessas das coisas indivisíveis, há uma possibilidade de sim e outra de não. Por isso são assim, tão misteriosas e contrárias, as sombras longas nas luzes baixas. Chamem um tal de siroco, e ele, que de um fôlego só, leve e separe uma frase em partes iguais e as espalhe por continentes desunidos à sombra fria contrária da luz. Que se erga ao meio-dia e elimine, o mais que poder, em toda sua verticalidade, a sombra gélida da separação. 

    Assim, por decreto divino, que se una o separado e se preencha o dividido. Que se funda a sombra com a luz, que as arestas cruas, tão finas e longas,  tão distantes e sombrias, se suavizem em laivos quentes num sopro austro levee consequente. Que traga, por fim, essa luz, paz em mantos sólidos e cobertas estanques de união infinita entre o eu solidificado e o resto do mundo, em graça, unificado. 

 

Peso

    

 

    Podia ficar uma eternidade debaixo dela. O seu peso, em cima de mim, era como uma manta sólida de apego doce. Depois de tudo, podia continuar à espera, à sua espera, até que as luzes se calassem. O simples e demorado peso nu sobre o meu destino, vagamente impresso nos lençóis, condensava aquela hora num suspiro tremendamente fundo. 

    Era a coisa que mais ansiava, aquele quente, pesado, dos seus seios pousados no meu peito, aberto, e um suspiro, um silvo, mel, nos meus ouvidos. Deixei-lhe uns quantos poemas escritos nas costas, outros nas suas coxas, uns com a ponta dos dedos, os mais doces, alguns de mão cheia, assim de carnais, enquanto esgrimíamos amor, ao sol, à chuva, nunca no frio, sempre à sombra do azul. 

    Não era só o seu peso, o seu cheiro e o seu encanto, eram todos os gestos delicados e precisos, a cuidada coreografia que se desenhava no colchão, no chão, nas paredes, e às vezes só em abraços, ternos, juntos ao azul da janela.    Podia ficar uma eternidade preso numa lágrima derramada por amor, por amor depois de feito. Era o depois, só o depois que importava. O peso do depois. O peso do que acabara de se fazer. O amor pesava mais depois de feito, tinha o peso dos gestos, dos gritos, da dor e do prazer, das mãos cravadas na carne, dos segredos contados nos olhos, do sabor do suor, dos lábios mordidos e cabelos puxados, das camisas arrancadas e dos beijos molhados, da mão na mão e da mão no dentro.

    Podia ficar uma eternidade, ali debaixo, prensado contra o chão, contra os lençóis, junto ao imenso azul que brotava da janela. Era todo aquele peso, do amor depois de feito, dos seus seios suados, de uma eternidade condensada numa hora gasta entre paredes surdas e azuis de mil tons, que repousado no meu peito me entregava luz, paz em laivos quentes. 

    Eu, feito e crescido em parte incerta, guardava cada hora parca naquele azul, como se âncoras arrastadas em leitos lisos, em lençóis ensopados no peso do orvalho acabado de condensar.         

    Debaixo dela, podia ficar tantas horas quantas o infinito conseguisse guardar na forma liquida de uma lágrima derramada por amor depois de feito.

     Podia continuar à espera, à sua espera, prensado pelo suave azul. Aguardava debaixo dos lençóis, juntando minutos em horas, horas em dias de espera áspera, só para voltar a ter o seu quente na minha boca, ali, imerso no imenso silêncio das luzes apagadas, no amor fundo, depois de feito.

 

Lapso, tempo e métrica

     Baixava sobre eles, naquele dia, uma pressa imensa. Era uma urgência sem precedentes, uma velocidade desproporcionada com os vagarosos gestos normais do dia a dia. Os comboios, nos apeadeiros, não esperavam mais que uns meros segundos. Os autocarros carregados de sonhos, alguns desfeitos, traziam os minutos contados e os segundos milimetricamente cronometrados. Não havia, nunca, tempo a perder, centímetro algum a ceder. 

    As gaivotas voavam apressadas, batiam as asas, afoitas, numa pressa ininterrupta, grave, como se não houvesse mais ar à sua frente. Os pombos, da mesma forma, traziam pragas à cidade e anunciavam desgraças quando pousavam em determinados sítios. Se pousavam no parapeitos traziam chuva, se nas gárgulas, granizo, se nas soleiras das portas, o sol. 

     Os mercados roubavam horas na sua preparação métrica, por isso, tinham de estar a postos quando abrissem, começavam cedo, nas ante-vésperas das noites. Sítios carregados de nervos, de suor, de longas e apressadas caminhadas, de vésperas mal dormidas, de promessas por cumprir. Há sítios onde as promessas se gastam com a  pressa de não se cumprirem.

    Naquele dia, os relógios atrasavam, os registos não funcionavam e o comboio vinha uns milímetros atrasado. Um milímetro, ali, podia transformar-se num metro inteiro ao final do dia. Era grave essa transformação. Eles, continham a pressa em breves suspiros, acumulavam tensão nos ombros e no bater das biqueiras dos sapatos à beira das plataformas. Um frenesim atónito, no mascar, nas bocas impacientes. No atirar das beatas para a linha. 

     As marés aceleradas traziam o lixo do mar, quatro ou cinco vezes ao dia, era impossível apanhar o ritmo. As margens apinhavam os detritos daquela imprudência toda e havia afluentes já entupidos. Nas pontes dolorosamente carregadas de celeridade, pesavam as horas, vibrava-se em sofreguidão e calcava-se as fundações, já frágeis, da hombridade fraterna entre pendulares.

     O movimento que outrora ansiava duas vezes por dia, repetia-se agora sete. Com tendência para chegar às oito, nos dias quentes. Nesses dias havia sempre mais premência, os que nunca saíam nos dias frios engrossavam aquela azafama doentia, já de si, incrivelmente voraz. 

    Quando o frio se impunha, emperrava as engrenagens da instância, mas pouco, abrandava-as só por uns segundos, daí degeneravam uns milímetros que, ao final do dia, com sorte, ditava um atraso na matriz. Havia quem gostasse, havia quem odiasse. Era assim, sempre fora, sempre será. O tempo rotina, e a rotina acelera o tempo. Havia quem o sentisse na pele, outros que o viam no reflexo baço das lentes côncavas de si mesmas. 

     Compreendiam as diferentes velocidades do prazo, dependendo, da inclinação do eixo. No entanto, as rotinas, as ânsias, as trigas não esperavam por centímetros dilatados em gestos imprecisos. Tinha de haver uma precisão incrível nos gestos, nas passadas, na espera, na batida frenética das solas ásperas, nos passeios, nas chaves que abriam as portas e nas réguas doces, frívolas, de minutos tácitos, trocados por uns meros centímetros ao final do dia.

     O tempo era tudo isso, naquele dia, em exclusivo, trocava-se por milímetros, por centímetros, por uns metros. Quem pudesse. Sabiam que, ao final da uma vida, acumulando milímetro a milímetro, podiam troca-los por uns segundos, por minutos, por uma hora a mais. Quem podia alavanca aquela poupança que dilatava momentos, com os seus, no dia antes de partir.

 

    

Tratado Adjudicado

Há uma ideia em construção nas fronteiras da sabedoria onde floresce a cegueira, essa planta autóctone do hipocampo menstruado. Tratemos a ideia como um todo, uma flor, um grito mudo, uma citara ocre que desfere umas notas em azul. Uma música sem cor, uma flor sem caule, um dente sem raíz. Outrora havia razão na pele eriçada, no áspero arrepio calafrio que gelava o dorso. Mas isso foi há muito tempo, quando a ideia fervilhava na medula. Se há luz na ideia, à sobra na ignorância feliz de infantilidade fútil, mas apreciada, austera de azuis profundos no baixo ventre infértil de sinapses fulgurais. Fujamos então das anorexias cerebrais, e que degenerem, por sua vez, em hemorragias verbais, que se calem os rouxinóis, que assobiem os pardais nos parapeitos da sabedoria guardada na oralidade vertical da maternidade paralela na língua apátrida. Articule-se um laivo, um soslaio de sobrolho, uma ruga na testa enquanto se coça um pobre cabelo. Ideia calva, fértil ignorância de um rebento aromático em estágio precoce. Sugere que enche, perde-se numa virgula, desencontra-se no ponto. Contrapõe um argumento, atira uma posta, aceita um senão quase sem condição. Não era para rimar mas rimou. Paciência… Deixa-se a ideia entregue ao acaso, há de sofismar, interpolar e vingar, há de ganhar pernas e aprender aandar: é só uma questão de tempo.

    • Quero uma coisa, assim, simples mas sofisticada. Entende?
    • Podemos sempre por um turbante. Torna-se mais complexo. Por exemplo. Concorda? É actual, “étnicorgânico”, assim meio isso, não?
    • Quero uma ideia original, nunca d´antes vista, ouvida ou lida. Uma radiografia cósmica regurgitada num erro fácil. Hum?
    • Genial! Sofisticadamente simples. Ignóbil besta hexagonal.

Num gesto ténue, fraco de luminosidade, esbanjamos horas falsas nas mesas frias do conhecimento fraternalmente dividido pelos cacos desfeitos da ignorância instalada. Vai um copo de água? Uma epidural anal para que seja mais fácil defecar apenas por gravidade? Hum? Fechamos um triângulo escaleno num retângulo esdrúxulo, tudo num demorado aperto de mão? Isso… Boa ideia. Adjudique-se a banalidade.